Meu Filho Só Pede Dinheiro e Continua Usando Drogas: O Que Fazer?
Quando um filho pede dinheiro repetidamente e, ao mesmo tempo, continua usando drogas, muitos pais entram em um ciclo difícil: dão dinheiro para evitar conflitos, acreditam em novas promessas e depois percebem que nada mudou.
Nesse momento surge uma dúvida dolorosa:
“Se eu parar de dar dinheiro, estarei abandonando meu filho?”
Não necessariamente. Existe uma diferença importante entre ajudar uma pessoa e facilitar comportamentos que podem manter o consumo.
Estabelecer limites financeiros não significa deixar de amar ou de oferecer ajuda. Em muitos casos, significa direcionar o apoio para aquilo que realmente pode contribuir para uma mudança.
Por que meu filho pede dinheiro o tempo todo?
Não existe uma única explicação. A pessoa pode estar desempregada, endividada ou enfrentando dificuldades reais.
Porém, quando existe uso problemático de álcool ou outras drogas, o dinheiro também pode acabar sendo utilizado para manter o consumo.
A família pode começar a perceber um padrão:
- Pede pequenas quantias várias vezes;
- Apresenta uma urgência diferente a cada pedido;
- Promete devolver e não devolve;
- Recebe dinheiro e rapidamente pede novamente;
- Não consegue explicar claramente os gastos;
- Acumula novas dívidas;
- Começa a vender objetos pessoais;
- Fica irritado quando a família recusa dinheiro.
Um episódio isolado não permite concluir que o dinheiro está sendo usado para comprar drogas. O que merece atenção é a repetição associada a outros prejuízos e sinais de perda de controle.
Dar dinheiro pode manter o ciclo?
Pode.
Imagine uma situação recorrente:
Ele pede dinheiro → a família entrega → o consumo continua → aparecem novos problemas → ele pede novamente → a família paga outra vez.
Sem perceber, os familiares podem começar a assumir consequências que deveriam sinalizar a gravidade da situação.
Isso não significa que os pais sejam responsáveis pela dependência do filho. Significa apenas que a maneira de ajudar pode precisar mudar.
Então devo simplesmente parar de ajudar?
Não.
Uma alternativa é substituir dinheiro disponível por ajuda direcionada.
Se ele disser que precisa de comida, você pode comprar a alimentação.
Se precisa pagar uma conta essencial, considere pagar diretamente ao fornecedor.
Se precisa ir a uma consulta, você pode organizar o transporte.
Se aceita procurar tratamento, acompanhe-o até uma avaliação.
A mensagem passa a ser:
“Eu quero ajudar você. Mas não vou entregar dinheiro que eu não sei como será utilizado. Posso ajudar com alimentação, saúde e tratamento.”
Assim, o limite financeiro não precisa significar rompimento do vínculo.
“É só R$ 20.” Pequenas quantias também merecem atenção
Muitas famílias cedem porque os valores parecem pequenos.
R$ 10, R$ 20 ou R$ 50 isoladamente podem parecer insignificantes.
O problema é observar a frequência.
Quando pequenos pedidos acontecem várias vezes durante a semana, é importante deixar de analisar cada pedido individualmente e começar a enxergar o padrão de comportamento.
E quando ele inventa histórias para conseguir dinheiro?
Pode aparecer uma sequência de justificativas:
“Preciso comprar comida.”
“Estou sem gasolina.”
“Preciso pagar uma dívida.”
“É para pegar um ônibus.”
“Depois eu devolvo.”
Não é necessário transformar cada conversa em uma investigação.
Em vez de discutir para descobrir se a história é verdadeira, a família pode estabelecer uma regra simples:
“Dinheiro em espécie eu não vou entregar. Se for uma necessidade importante, vamos verificar como posso ajudar diretamente.”
Isso reduz discussões intermináveis e deixa o limite mais previsível.
Meu filho fica agressivo quando eu digo não. O que fazer?
Esse cenário exige mais cuidado.
Se a recusa do dinheiro provoca gritos, ameaças, destruição de objetos ou violência física, não transforme o momento em uma disputa de força.
Evite confrontá-lo durante intoxicação ou agitação intensa.
Priorize a segurança das pessoas dentro da casa, especialmente crianças, idosos e outros familiares vulneráveis.
Diante de violência, risco imediato, confusão intensa, convulsões, perda de consciência, dificuldade respiratória ou suspeita de overdose, procure os serviços de emergência apropriados. O SAMU atende pelo 192.
Dependência química pode exigir tratamento, mas não justifica violência contra a família.
E se ele começar a vender as próprias coisas?
Celular, televisão, ferramentas, roupas, videogame ou outros objetos podem começar a ser vendidos.
Isso pode indicar agravamento dos problemas financeiros e comportamentais associados ao consumo.
A situação fica ainda mais preocupante quando começam a desaparecer objetos pertencentes a outras pessoas da casa.
Nesse estágio, pode ser necessário proteger:
- Cartões bancários;
- Documentos;
- Senhas;
- Dinheiro;
- Medicamentos;
- Chaves de veículos;
- Objetos de valor.
Ao mesmo tempo, procure avaliação profissional. Apenas esconder os bens pode reduzir um problema imediato, mas não trata a causa do comportamento.
Devo pagar as dívidas do meu filho?
Depende da situação.
Pagar repetidamente todas as consequências financeiras pode criar um ciclo em que a pessoa continua consumindo enquanto a família absorve os prejuízos.
Antes de pagar uma dívida, procure entender:
qual é a dívida, para quem é devida, se existe risco real e se o pagamento contribui para resolver um problema ou apenas permite que o ciclo continue.
Evite entregar dinheiro para que ele próprio “resolva” dívidas cuja origem você desconhece.
Se houver ameaças, extorsão ou risco de violência relacionados a uma dívida, trate a situação como questão de segurança e procure ajuda adequada.
Não faça empréstimos para sustentar esse ciclo
Alguns pais chegam a:
- Utilizar cartão de crédito;
- Fazer empréstimos;
- Usar limite bancário;
- Vender patrimônio;
- Pedir dinheiro para parentes.
Tudo para solucionar crises sucessivas do filho.
Quando isso começa a comprometer as necessidades básicas e a estabilidade financeira da própria família, é necessário interromper o ciclo e buscar orientação.
A recuperação de uma pessoa não deve significar a destruição financeira de toda a família.
Como conversar com meu filho?
Escolha um momento em que ele esteja em melhores condições para conversar.
Evite iniciar a conversa durante intoxicação, abstinência intensa ou uma crise.
Em vez de:
“Você só aparece aqui para pedir dinheiro.”
Experimente trabalhar com fatos:
“Nas últimas semanas você pediu dinheiro várias vezes, algumas contas não foram pagas e o uso de drogas continua. Estamos preocupados. Não vamos mais entregar dinheiro, mas estamos dispostos a ajudar você a procurar tratamento.”
A diferença é importante.
O objetivo deixa de ser vencer uma discussão e passa a ser estabelecer um limite e apresentar uma alternativa.
Ele promete parar sempre que precisa de dinheiro
Essa situação é particularmente dolorosa para os pais.
A pessoa pode dizer:
“Dessa vez eu vou parar.”
E acreditar sinceramente nisso naquele momento.
Porém, quando existe dependência, uma promessa isolada pode não ser suficiente para modificar o comportamento.
Se existe um histórico de:
pedido de dinheiro → promessa → novo consumo → conflito → nova promessa
é hora de mudar a estratégia.
Em vez de exigir outra promessa, proponha uma ação concreta:
“Você aceita conversar com um profissional hoje?”
Meu filho não quer tratamento. O que posso fazer?
A família pode procurar orientação mesmo quando ele recusa ajuda.
Serviços como CAPS e CAPS AD, além de profissionais e serviços especializados, podem ajudar a avaliar a situação e orientar os familiares.
Não é necessário esperar que a pessoa diga:
“Eu sou dependente e preciso de tratamento.”
A família pode começar a mudar sua própria maneira de agir antes disso.
Meu filho precisa ser internado?
Pedir dinheiro constantemente ou continuar usando drogas não significa automaticamente que a pessoa precise ser internada.
Existem diferentes níveis e modalidades de cuidado.
A necessidade de internação deve ser avaliada individualmente considerando fatores como:
- Padrão e gravidade do consumo;
- Perda de controle;
- Condições físicas e psiquiátricas;
- Riscos existentes;
- Tratamentos já realizados;
- Capacidade de adesão ao tratamento;
- Recursos disponíveis fora da internação.
Em muitos casos, o tratamento pode ocorrer sem internação.
Em outros, uma equipe poderá concluir que é necessário um nível mais intensivo de cuidado.
E se ele não aceitar ser internado?
A recusa ao tratamento, sozinha, não autoriza automaticamente uma internação involuntária.
Para dependência de drogas, a legislação brasileira estabelece critérios específicos. A indicação deve envolver avaliação profissional e formalização médica nos casos previstos em lei.
A família pode procurar orientação e solicitar uma avaliação, mas não deve tentar realizar uma internação involuntária por conta própria.
7 atitudes que os pais podem começar hoje
Se você está vivendo essa situação, comece reorganizando a forma de ajudar:
- Evite entregar dinheiro sem controle sobre a finalidade.
- Ofereça ajuda diretamente para necessidades essenciais.
- Proteja documentos, cartões, medicamentos e objetos de valor.
- Não assuma automaticamente todas as dívidas.
- Estabeleça regras claras dentro de casa.
- Não aceite ameaças ou violência como condição para ajudar.
- Direcione sua ajuda para avaliação e tratamento.
O objetivo não é punir seu filho.
É deixar de sustentar um ciclo que está prejudicando ele e toda a família.
Você pode dizer “não” ao dinheiro e “sim” ao tratamento
Talvez essa seja a mensagem mais importante deste artigo.
Você pode dizer:
não ao dinheiro sem explicação.
não às ameaças.
não ao pagamento contínuo das consequências.
E, ao mesmo tempo:
sim à alimentação.
sim à avaliação profissional.
sim ao acompanhamento.
sim ao tratamento.
sim à possibilidade de recomeçar.
Colocar limites não precisa significar abandonar.
Pode significar mudar a maneira de ajudar.
Precisa de orientação sobre o próximo passo?
Se seu filho continua usando drogas, pede dinheiro constantemente e você já não sabe como agir, procure orientação profissional.
A família não precisa esperar a situação chegar a uma emergência para começar a buscar ajuda.
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